A Face Sangrenta, Contraponto, 1953

A Face Sangrenta

“Porém a Grande Voz, dizendo banalidades, tornava-se por isso mesmo profunda, como os textos dos profetas. Quando a rádio anunciava que ‘ vai falar Filipe’, todos nós tremíamos de comoção. Particularmente nós, os jovens, que acima de tudo amávamos a esperança. ‘Filipe’ era, obviamente, um pseudónimo, ou seja, um meio de prolongar o mistério. Artur explicava-nos que significava ‘amigo de cavalos’, o que o fazia acreditar, secretamente, que a Grande Voz era também de cavalaria. Eu, que no entanto me viciara no raciocínio, hesitava diante deste ruído oco de tambor. Mas só à noite, no silêncio do meu cigarro solitário. Porque ali, ouvindo a rádio, eu tremia como os outros.”, Vergílio Ferreira (“O Jogo de Deus”)

“Agora a serra descia a toda a pressa para a aldeia. Depois, tranquila, alastrava devagar num grande vale, para subir ainda, suavemente, lá ao longe. (…) Quando porém, vencida logo adiante uma pequena colina, se lhe levantou do chão o pico da torre do Paço com a massa negra das ruínas, ele parou ainda, emocionado, na expetativa dolorosa de ver surgir o Outeiro.”, Vergílio Ferreira (“O Encontro”).

“Dissemos que uma das tradições assimiladas por V. Ferreira era a ironia eciana. Mas não basta este elemento para explicar a posição do A. Se toda a ironia pressupõe um conteúdo psicológico ou intelectual ou estético, ou moral, etc., também pressupõe um conteúdo social, na medida em que implique uma conceção perante a sociedade, perante os outros. V. Ferreira, em cujo pensamento subjaz uma conceção monista do mundo, não faz essa dissociação, resultando a sua ironia em algo de patético ao apreender-se a unidade entre o ironizante e o ironizado. Sente-se esse patético até em ‘O jogo de Deus’, mau grado as intenções caricaturais do A.. Neste conto, o que era comédia transformou-se em drama e o ridículo chega quase a ganhar foros de digno e humano”

Raul Lopes

“Talvez que as melhores criações de Vergílio Ferreira como contista, sejam contos exemplares tais Jacinto, o Livre e O Jogo de Deus, cuja verve e ironia de grande qualidade, cuja ambivalência mesmo, lembram a penetração da superior ironia queirosiana. Vergílio Ferreira merece uma crítica atenta, e também um apoio editorial e uma curiosidade de leitura que, proporcionalmente, se malbarata em autores bem menores mas mais propagandeados.”,

Óscar Lopes