Conta-Corrente (5 Volumes)

“É boa. Afinal esta Conta-Corrente está sendo bem aceite pelos que já a leram. Porque é um bom livro ou porque a ‘larachice’ é a coisa do mundo ‘mais bem partilhada’? Voltaire escreveu uma biblioteca e pouco ligava ao Candide, Erasmo, idem, e pouco ligava ao Elogio da Loucura. Mas foi o que menos tinham em apreço que mais em apreço foi tido pela posteridade. Vou admitir a sério que vou ter ‘posteridade’.” Vergílio Ferreira (Conta-Corrente 3).

“Sim, Vou recomeçar. Nada a fazer, este escrito é-me sem remédio. (…) Reflexão, impressões do que de importante possa ter acontecido, ideias que valha a pena existirem. De toda a maneira, muita coisa me vem à mente e se evapora no pensá-la. Escrevê-la é assim aprisioná-la, fixar-lhe a existência na leitura ocasional que alguém possa fazer disto. Como outros conservam mil ninharias de recordação, fixo eu o que acidentalmente me venha a calhar reter. E há um hábito que se me criou e contra o qual nada posso. Como o fumar. A ver.”, Vergílio Ferreira (Conta-Corrente 4).

“A uma primeira leitura, as ressonâncias económicas da expressão ‘conta-corrente’ funcionam como uma promessa de despretensiosismo literário ou até mesmo de uma certa marginalidade relativamente á ‘literatura séria’. Claro que é nessa distância irónica que se cumprem os códigos propriamente literários do diário, mas não deixa de ser curioso que o título torne tal distância desde logo explícita – e talvez este seja o primeiro sinal de que Conta-Corrente é uma obra que tem perfeita consciência do género a que pertence.”

Luis Mourão

“A uma primeira leitura, as ressonâncias económicas da expressão ‘conta-corrente’ funcionam como uma promessa de despretensiosismo literário ou até mesmo de uma certa marginalidade relativamente á ‘literatura séria’. Claro que é nessa distância irónica que se cumprem os códigos propriamente literários do diário, mas não deixa de ser curioso que o título torne tal distância desde logo explícita – e talvez este seja o primeiro sinal de que Conta-Corrente é uma obra que tem perfeita consciência do género a que pertence.”

Eduardo Prado Coelho

“Com efeito, desvendar a máscara, grave ou aligeirada (mas em todo o caso sempre existente) do escritor e fazê-lo com hábeis efeitos de autenticidade situa o diário justamente nessa margem (nessa barra paradigmática) que instavelmente define a oscilação (de forte carga libidinal quer no plano da narrativa quer no do conhecimento – o que, bem vistas as coisas, vem a dar no mesmo) entre verdade e ficção, entre vida e romance, entre o homem e o artista; e Vergílio Ferreira bem o sabe, que carrega o seu diário de doses equilibradas das duas vertentes opostas que governa em desequilíbrios de recurso sempre pronto à outra fase do movimento oscilatório.”

Maria Alzira Seixo
Ficha Técnica

Conta-Corrente, Lisboa: Bertrand, 1980