Ficha Técnica

Conta-Corrente Nova Série. Amadora : Bertrand, 1993 – 1994

Conta-Corrente Nova Série (4 vols.)

“Tenho a consciência – poderei dizê-lo? – de ser o escritor português por quem passou mais clara e exata a problemática do nosso tempo. A situação da arte e seu envolvimento no sagrado, a revelação do ‘eu’ (e do ‘tu’) e a sua afirmação contra o que o nega ou pretende destruir, o espaço originário de todo o problematizar, a situação-limite da civilização e a morte das ideologias com a consequente problematização da guerra, o problema da ‘palavra’, etc. etc. Sitno-me tentado a dizer como Stendhal ou Sá-Carneiro que daqui a uns anos serei enfim entendido. No que problematizo e no modo como fiz que isso se problematizasse. Sinto como nunca que em mim o meu tempo se fez razoavelmente consciência dele.” Vergílio Ferreira, Conta-Corrente Nova Série I

“É extremamente penoso pensar-me no meu tempo cultural. Sinto-me suspenso do vazio, sinto que todos os apoios do homem tombam à sua roda e o deixam não bem apenas sem orientação, mas sobretudo com um possível de todos eles. Não é coisa que eu veja quando quero, mas se me ilumina de vez em quando. Então o presente e o futuro não têm significação e o passado, como tudo o que nele fomos, é de súbito extraordinariamente ridículo, pueril, lastimoso. Tenho pensado isto sobretudo em função da dissolução das formas de arte. Mas mormente o pensei em função do pensar, ou seja da filosofia. Decerto ela vem depois da arte. (…) O homem vive hoje entre destroços, sem nada que o referencie a uma ação ou pensamento. Mas o que de todo me intriga sobremaneira é que os pensadores profissionais não se interroguem sobre como é possível hoje a sua evidência em face do que foi uma evidência para os pensadores de ontem (…) Não têm a curiosidade de refletirem porque é assim? Mas o que é importante é que tudo isto tem um significado terrível e é o vazio em que nos movemos. É a hora dos salteadores, dos vigaristas, dos ‘vendedores de banha da cobra’ para todas as maleitas do corpo e da alma.” Vergílio Ferreira, Conta-Corrente Nova Série III

“Há outras perguntas nesta Conta-Corrente, ou melhor, constatações interrogativas que não esperam resposta, apenas colocam a lucidez do presente.

Apesar da retração ensaística, o núcleo duro das preocupações vergilianas não deixa de se afirmar. Aliás, dificilmente poderia ser doutro modo em quem pensa – com ampla legitimidade, diga-se – ‘ser o escritor português por quem passou mais clara e exata a problemática do nosso tempo. (…) Sinto como nunca que em mim o meu tempo se fez razoavelmente consciência dele.’ (I, p.268) Só que esta espécie de hegelianismo nada tem de triunfante, é todo ele crepuscular: afinal, trata-se de ‘interiorizar a evidência de que enterrámos 2500 anos de saber.’ (I,p. 270). O que não é fácil, e por isso a evidência pôde ser longamente confundida com simples pessimismo. Quer dizer, Vergílio Ferreira teve razão antes do tempo. Pagou o seu preço, mas manteve a clarividência do lugar. Nos momentos mais altos, foi mesmo investido da força da epopeia negativa. Hoje, que o impasse da história é ocidentalmente universal, já nem esse triunfalismo invertido resta: ‘enquanto me queixava da desagregação do Mundo, tinha esse mesmo motivo para pensar e ser em escrita. Mas agora o que estamos é a viver esse momento e queixarmo-nos disso já vai atrasado.’ (II, p. 91, sublinhados do Autor).”

Luís Mourão