Ficha Técnica

Do Mundo Original. Coimbra : Textos Vértice, 1957

Do Mundo Original

“Falar pois em ‘mistério’, em ‘sagrado’, a propósito da arte, tem um sentido mais original, menos contaminado, que a propósito da religião, pois nós sabemos que os deuses não têm face nem nome e nos habitam o sangue: na medida em que um deus existe ele deixa de ser divino… Nem o mistério é tanto o que se nos furta à associação lógica, como o que se nos revela sob a obscura forma de um alarme. Sentir a vida nos limites extremos da sua revelação é percebê-la de dentro para fora, nos recessos profundos de nós próprios, na fulguração imediata: essa é a dimensão do ‘mistério’. A verdadeira face do sagrado não se mostra num corpo de doutrina (que ainda quando implica o mistério, o transforma de algum modo em positividade – como frisa Jean Delhomme –, pela razão simples de o fixar, o limitar, o reduzir a um esclarecimento, a uma disciplina): a face do ‘sagrado’ revela-se na interrogação profunda, na fascinação da pergunta que sabe não encontrar resposta, mas é mais forte que sabê-lo. O mistério raia a toda a comoção de raízes, à angústia como à alegria – e tanto mais categórico ou denso, quanto mais profunda vai essa alegria ou angústia, as quais, aliás, nos limites do sangue, tendem a identificar-se. A arte não explica – jamais pôde ‘explicar’, ‘ensinar’ – porque o seu meio de informar não é o ensinamento mas a revelação.” Vergílio Ferreira (Do Mundo Original).

“Na verdade, e desde as suas primeiras tentativas expressas em Do Mundo Original, texto-fundador da sua aventura de autor, tanto no domínio da ficção como no da reflexão – uma á outra indissoluvelmente ligadas –, o ensaísmo de Vergílio Ferreira é a encenação, a teatralização dessa mesma situação incomunicável do eu-no-mundo como fonte original e inesgotável da única inteligibilidade indiscutível, aquela que na linguagem tão particular da Carta ao Futuro se designa como aparição.”

Eduardo Lourenço