Ficha Técnica

Mudança. Lisboa : Portugália Editora, 1949

Mudança

“O que era a crise? Carlos nunca entendera bem. Conhecia a lei clássica da oferta e da procura. Céus! Ele não era estúpido talvez, mas que maçada os códigos, câmbios, moeda, o pai tinha dinheiro, Coimbra cabia toda numa ceia com guitarras e mulheres. Agora estava ali a crise, sem uma razão concreta em que se pudesse escarrar, coisa que se visse, se palpasse.”, Vergílio Ferreira (Mudança)

“O vento largo e calmo, o gorgolar da ribeira traziam a Bruno, agora de novo no casarão de Vilarim, um longo cismar de todos os invernos de criança. Felizmente, Cardoso mal tocara na casa. Eram as mesmas portas pesadas, as janelas corrediças, a mesma cozinha lajeada e negra. Mas justamente por isso, Carlos sentia em tudo a presença imóvel dos tempos de infância, como se ali não tivesse crescido até ser homem.

(…)
Bruno amava o silêncio. Acendia o fogão da sala, ficava para ali. Olhava, pela vidraça, os compridos veios de névoa escorrendo sobre as coisas, a serra toldada e húmida, os dedos magros da figueira do quintal erguidos para o céu pardo. Ouvia, recolhido, a zoada larga nos ocos da montanha, como a fervura de um mar.” Vergílio Ferreira (Mudança)

“Toda a ação do romance está condicionada à exploração da crise, que de mera realidade factual vai tomando rapidamente dimensões míticas e produzindo efeitos nos setores mais recônditos da existência. É a crise que deteriora as relações de Carlos com Berta, que produz nesta a desonfiança, o orgulho, a rispidez e o desejo constante de humilhar o marido, que arrasta Carlos Bruno à lassidão, á inapetência, à meditação no recolhimento solitário em que se deseja encontrar em si próprio.

(…)

A crise, portanto, em sua imensa amplitude, constitui o tema de Mudança. Com efeito, é a partir desse núcleo e em torno dele, que a estrutura narrativa do romance se desenvolve.”

José Rodrigues de Paiva