Ficha Técnica

Pensar. Amadora : Bertrand, imp. 1992

Pensar

“Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se –, porque temes então a morte, se já estás morto?” Vergílio Ferreira, Pensar.

“Nessa medida, Pensar pode ser considerado – e parece que foi assim que alguma crítica o leu e recebeu – como uma espécie de ‘quinta-essência’, no sentido químico a alquímico do termo, da visão da vida de um autor que introduziu na trama da sua obra, uma desusada carga de preocupação especulativa de teor expressamente filosófico ou metafísico. (…) Vergílio Ferreira tornou-se o nosso romancista-filósofo por excelência, e a glosa de que em geral é alvo só encontra analogia naquela de que obras como a de Antero e Fernando Pessoa foram – ou são – objeto. A esse retrato de pensador-artista ou artista-pensador, a sua obra Pensar poria, por assim dizer, o seu ponto final, colocando o acento e a motivação profunda de todo um itinerário, nessa issão, digamos, impossível, mas a única que constitui para a humanidade o mais alto imperativo, que não é nem o de se sobreviver, nem de se pensar, mas apenas, pensar.

(…)

Todos os romances de Vergílio Ferreira, mesmo os primeiros, estão cheios do que se pode chamar obsessão metafísica ou pathos metafísico, expresso na predileção pelos que tradicionalmente pertencem à esfera da filosofia, temas da angústia. Da morte, do tempo, de Deus, do sentido da arte ou da história.”

Eduardo Lourenço