Ficha Técnica

Um Escritor Apresenta-se. Lisboa : Imprensa Nacional, 1981

O Escritor Apresenta-se

“A atividade ensaística ideal é a que prolonga a ficcionista – e não a que lhe é subsidiária e intervalar. Só, assim, aliás, é possível reconhecermos ainda no autor dos ensaios o autor da ficção. (…) Pelo que me toca, há naturalmente o leitor ou o crítico que me localiza no ensaio e me recusa um lugar na ficção; como haverá o que proceda de modo inverso. Mas se por vocação entendermos não o que se determina pela qualidade do que realizamos, mas apenas pelo ‘prazer’ que uma atividade nos dá – em tal caso o que os fados decidiram a meu respeito foi que escrevesse romances. A menos que – como em breve espero esclarecer para mim próprio em Invocação ao Meu Corpo – o ensaio me possa dar, com a qualidade ensaística, o ‘prazer’ que me vem da ficção.” Vergílio Ferreira (Um Escritor Apresenta-se)

A segunda pessoa a entrar em cena é o entrevistado – a linguagem triunfante porque ninguém lhe responde. A cada cavilha, ele desencadeia as respostas nos traços que se dispõem, que se dispersam, que se recompõem. É ele que fala. Seguem-se-lhe os ritmos e os patamares do solilóquio e parece começar a entrever-se uma descontinuidade semântica entre o entrevistado e o escritor. (…) E informa da biografia, da biogeografia, do percurso de aprendizagem, do outro, dos outros – política, filosofia, deus, homem, história, cultura, arte, conflito, crise. Da vida e da morte. E do cansaço. Fala sempre do modo específico de um discurso dramático sem cenário, totalizando de tal modo a dinâmica da sua própria fala que é afinal entre si e si que se assiste finalmente à entrevista acontecida: caminhando sempre dentro de uma lógica do vivo e do cronologicamente ou essencialmente mutável, atento aos sinais, o conflito ou a harmonia estabelecem-se entre a sua esperança e o seu cansaço, entre as suas primeiras leituras e o que já não lê, entre o seu ser social e o seu ser único, entre o seu semelhante e o seu diferente, o seu nome e as suas máscaras, a sua liberdade e o seu condicionamento, os seus laivos presencistas e a sua profunda modernidade, a sua história e a História.” .

Maria Glória Padrão

“Marginalmente aos textos selecionados são reproduzidos passos da obra do escritos (geralmente falas de personagens), que formam com aqueles um contraponto de harmonização entre a personalidade do autor e a sua criação. Biografia, auto-apreciações, relacionações com pessoas, lugares e coisas, ideações filosóficas e éticas, juízos literários – todo o somatório duma individualidade pensante e criativa – estão testemunhados neste livro densamente revelador. No documento assim reunido e organizado concentra-se, em facetas múltiplas, ‘um decurso só (…) de um inteligente e obstinado e de um visionário ágil’ – o homem e escritor, ondoyant et divers, que é Vergílio Ferreira.”

Álvaro Salema