Rápida a Sombra

“No limiar da velhice, como é que se finge de vivo? Porque é preciso para estar. Vinte volumes, tenho-os aqui encadernados para a glória da família, falei da vida e da morte, e do amor da cinta para cima e para baixo, e dos deuses, e da política quando mais jovem para aquecer – que é que disso está aqui comigo? Que é que está connosco quando estamos só nós?” (Vergílio Ferreira, Rápida, a Sombra)

“Um livro ainda, reinventar a necessidade de estar vivo. Mundo da pacificação e do encantamento – visitá-lo ainda – mundo do êxtase deslumbrado. Da minha comoção subtil e íntima, vidrada de ternura até às lágrimas. Da pálida alegria oculta como uma doença. Do frémito misterioso da transcendência visível. Da fímbria de névoa como auréola que diviniza o real. Do reencontro com o impossível de mim. Da quietude submersa. Do silêncio. Um livro ainda – um livro? Frémito do êxtase, a ternura subtil, fímbria, limite, pálida alegria – uqão longe tudo já, ó espaço da maravilha.” (Vergílio Ferreira, Rápida, a Sombra)

“Como Nítido Nulo, Rápida, a Sombra é um romance construído sob o signo da ironia. Os corifeus da política, da História, da ciência, da arte, profetas ou senhores absolutos da verdade existentes em todos os quadrantes do mundo, são vistos de forma a deixar patente a falsidade das suas crenças e a ausência de sinceridade nas suas posições. A própria situação do narrador é profundamente irónica.

(…)

Mas o sentido irónico de Rápida, a Sombra estende-se à sua própria estruturação, o que se percebe ao final do romance, no último capítulo, espécie de chave para a interpretação da obra, quando se descobre o logro em que o leitor é mantido durante todo o desenrolar do livro, acreditando que o narrador fora efetivamente abandonado por sua mulher, que afinal regressa pela noite, algumas horas depois de haver saído.”

José Rodrigues de Paiva
Ficha Técnica

Rápida a Sombra, Arcádia, 1ª Edição, Lisboa, 1975