Ficha Técnica

Estrela Polar. Lisboa :  Portugália, 1961

Estrela Polar

“Alucina-me o absurdo como um labirinto: como ser eu nos outros? Ser irredutível e múltiplo? Mas só assim a solidão deixaria de existir. Que me importa transmitir aos outros que dois e dois são quatro ou mesmo o que se passa no fundo de mim? O que eu queria era ser eles quando estão pensando que dois e dois são quatro. O que eu queria é que eles sentissem o que eu sinto e não o que eles sentem. O que eu queria é que eles fossem eu e eu eles, porque só assim é que a ‘comunicação’ tem sentido. Decerto, tudo isto é absurdo – estou farto de o saber. Mas o mais absurdo é o mais humano…”, Vergílio Ferreira (Estrela Polar)

“– O homem está só. Mas como há-de ele estar só? Isto é um absurdo e a vida não pode ser absurda. Toda a minha história começa aqui. O resto entende-se bem.”, Vergílio Ferreira (Estrela Polar)

“A impossibilidade de amor existe em Estrela Polar para a ambição do narrador. E só aí. Em Emílio, por exemplo, eu sugiro que é impossível quer no sentido restrito (ele distinguirá talvez as irmãs) quer no sentido lato (há um pacto de aliança entre ele e os doentes). Num Garcia pintor, que na ligação com uma cega afeta aceitar o radical solipsismo, verificamos, para o fim do livro, que o amor é um apelo invencível – e genericamente, pois, o outro. Mas que fica ainda de o último terceiro perante quem A e B se poderão amar? Porque não há uma união senão um terceiro perante quem A e B se poderão amar? Porque não há uma união senão perante um terceiro. Sartre o frisa na sua Dialética. Esta a derradeira questão do Adalberto do meu livro.”, Vergílio Ferreira (Um Escritor Apresenta-se)

“Pois bem, Estrela Polar é, ao que suponho, uma história em que fundamentalmente se propõe o problema da ‘comunicação’. Tal ‘comunicação’ surge em vários níveis, desde a degradação do ‘grupo’ até à situação-limite da impossível comunicação, ou antes identificação.”, Vergílio Ferreira (Um Escritor Apresenta-se)

“Se Aparição é o romance do eu, Estrela Polar é o romance do tu. Mas tal como a primeira pessoa fora procurada numa zona de radicalidade, é agora na mesma zona que é procura a segunda. Assim no romance se estabelecem vários níveis de comunicação.”, Vergílio Ferreira (Um Escritor Apresenta-se)

“Assim hipoteticamente colocado o tema de Estrela Polar, a situação humana nele representada, embora dotada de uma lógica inegável apresenta-se raiada de uma atmosfera de absurda irrealidade algo semelhante ao que de insólito e brumoso possui o universo romanesco de Kafka. Esse absurdo, essa irrealidade, revelam-se muito mais francamente quando se analisa a experiência vivenciada dessa colocação hipotética, que é, afinal, a própria situação nuclear de Estrela Polar (…).

José Rodrigues de Paiva

“O conhecimento temporal da realidade afigura-se-nos ainda expresso, em Estrela Polar, através do que se pode denominar a alegoria do labirinto, frequente em certos romances modernos. Os passeios, o vaguear pelas ruas, as idas e vindas através da cidade com ou sem objetivo, apresentam em geral um itinerário preciso, com a menção de todas as ruas que se percorrem – e quase se poderia traçar um plano da cidade com base nesses trajetos.

(…)

Não estamos longe das buscas desesperadas do herói de Kafka, em O Processo, e da negação que sempre se lhes contrapõe.”,

Maria Alzira Aleixo