Cartas a Sandra

“Mas eu pensava em mudar de ambiente, cortar com tudo, recomeçar a vida por sobre a tua morte. (…) E no começo de aqui estar, julguei tê-lo conseguido. Terra da minha origem, repousar enfim nela, reencontrar aí o que me seja de verdade no envelhecer. E há os sítios do convívio aldeão. E há a vila para uma conversa mais letrada.”, Vergílio Ferreira (Cartas a Sandra)

“Sandra. Há já bastante tempo que te não escrevo. Mas não sei a razão. (…) Criaste-te fora de todos os códigos divinos ou humanos e só eu o soube. Porque ninguém te saberia se eu te não soubesse e te não tivesse encontrado para te saber. Serias assim bela e inútil como uma flor dos caminhos onde ninguém passa. Mas eu passei e vi-te. Só que o ver-te nem sempre descobre o mistério de ti, o leve milagre que me paralisa.”, Vergílio Ferreira (Cartas a Sandra).

“Mas nós só temos uma clara vivência desse tempo eterno em termos de ficção, quando acabamos todo o percurso e, na luz da sua última versão, que é a versão de todas as versões, aquela em que está implícita nas Cartas a Sandra. Nelas – agora é que é exato um dos títulos dos seus primeiros romances ‘onde tudo foi morrendo’ –  é que tudo morreu. Tudo morreu, mas essa morte é a condição da última transfiguração, aquela, definitiva, que já nem pela memória pode ser recuperada.” 

Eduardo Lourenço

“Sandra é dupla: é ao mesmo tempo essa figura inalcançável mas que determina toda a sua pulsão para uma fusão amorosa possível: e ao mesmo tempo Sandra é igualmente uma Sandra terrestre e essa provavelmente é para mim a parte mais valiosa das cartas em que Vergílio Ferreira dá uma eternidade, digamos não à sublimidade de Sandra que o recusou, mas à Sandra quotidiana que foi submetida à prova do tempo e às provas do tempo.” 

Eduardo Lourenço
Ficha Técnica

Cartas a Sandra, Bertrand, Lisboa, 1982.